Afinal, os franceses não tomam banho?

Na semana passada, o tal cliché (ou não) envolvendo o banho e os franceses voltou à tona na mídia por conta de comentários feitos pela atriz Thaila Ayala que estava (ou ainda está?) de passagem por Paris. “As pessoas fedem muito nessa França, nessa Paris. É claro que deve ter suas exceções como qualquer lugar do mundo, mas sabe o que é você quase vomitar? É muita gente fedida”, declarou em seu InstaStories. O vídeo de um cearense falando da tal “catinga refrigeralizada” viralizou esta semana. Mas afinal, os franceses cheiram mal mesmo? Eles não tomam banho?

Minha primeira reação é rebater com uma negativa. Isso porque o meu marido é francês e quando as pessoas soltam uma afirmação generalizada do tipo “os franceses fedem”, meu instinto é defendê-lo. Assim como ele faria se ouvisse de alguém que “toda brasileira é siliconada” ou algo do tipo. Então antes de opinar, vamos aos fatos.

Contextos diferentes

O Brasil é um dos lugares onde mais se toma banho, até três vezes por dia. Os motivos a gente  que nasceu lá (aí) já sabe: faz muito calor, gostamos de estar cheirosos e fresquinhos, nos sentimos bem, desde muito pequenos as nossas mães ficavam no pé para pararmos de assistir desenho e ir para o chuveiro… e por aí vai. Muitos de nós têm até o cuidado de levar uma escova de dentes para o trabalho para limpar os dentes depois do almoço. Faça isso em algum outro lugar do mundo para ver como os outros vão te olhar.

Na França, a contexto é outro – e bem mais antigo. Por exemplo, Louis XIV, que transformou o castelo de Versailles no que ele é hoje, é considerado um dos reis mais sujos da história. Durante os quase 80 anos de reinado, ele só teria tomado no máximo cinco banhos “inteiros” na vida e usava perfume para disfarçar o odor. A medicina antiga acreditava que a sujeira na pele servia como uma barreira contra doenças, a Igreja considerou o banho como imoral, as guerras deixaram a higiene corporal em segundo (ou até terceiro) plano… e por aí vai.

Até chegar em uma época não tão distante assim, como a geração dos avós do meu marido, em que por falta de infraestrutura adequada e de água aquecida, a prática comum (chamada aqui de “toilette”) era limpar apenas as partes íntimas, embaixo do braço e o rosto com uma luvinha de tecido de toalha. E esses hábitos foram repassados para as próximas gerações. De maneira que apesar da maioria (quase 68%) hoje tomar um banho todos os dias, ainda tem 20% da população que não o faz. Isso é um francês a cada cinco. E ainda tem os assustadores (do ponto de vista dos brasileiros) 3,5% que afirmam só tomar banho uma vez por semana.

Ou seja, não dá para dizer que os franceses tomam banho como os brasileiros. Mas também não dá para afirmar que a exceção é quem toma banho. A diferença na importância que o banho tem no cotidiano faz realmente parte da esfera cultural. Tem dermatologista francês que insiste que mais de um banho por dia tira a barreira de proteção da pele e que é ok fazer o mínimo com a tal luvinha – desde que ela seja trocada a cada vez. E tem francês que ouve. No Brasil, podem aprovar uma lei contra o banho que nós não vamos mudar os nossos hábitos. E do mesmo jeito que nós não estamos preparados para quando faz frio, eles carecem de preparos estruturais (tipo ar condicionado em tudo quanto é lugar) e físicos para encarar o calor.

Para concluir, acho que o errado dessa história é generalizar e exagerar. Já encontrei muitas pessoas fedidas por aqui, sim. Mas assim como no Brasil, a maioria foi em situações durante o verão, no fim do dia dentro do transporte público. Em quase quatro anos morando na França, o cheiro de “apenas” uma pessoa realmente me deu ânsia de vômito. Ok, em 23 anos morando no Brasil, que eu me lembre, isso nunca aconteceu. Mas deve ter sido muita má sorte da moça, durante uma estada de alguns dias, entrar numa loja onde estavam concentrados todos os 20 e tantos porcento de franceses que não tomam banho todo dia.

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13 Comments

  1. Dizem que é por isso que o perfume francês é o melhor hahah…Mas vem pegar metrô em SP às 18h para ver o que é fedo. Também nos EUA ouvi muita gente criticar os nossos banhos diários e não tomá-los com frequência, são questões culturais, climáticas…São inúmeras situações que devem ser consideradas, não dá pra generalizar em nenhum caso.

  2. Olá!
    Parece que por conta da baixa auto estima em que se encontram os brasileiros, essa história de de sermos os mais limpinhos do mundo virou uma lenda.
    Isso é mesmo lenda. Quem já andou em transporte püblico lotado no Brasil sabe muito bem disso.
    Bisous
    Fátima Almeida

  3. Bonjour
    Voce também esqueceu que a água na França é muito rica em calcário que faz muito mal para a pele.
    Já vivi em muitos lugares pelo mundo e um sinal de ignorância é fazer generalizações de qualquer espécie e ordem.
    Se for assim todo brasileiro é ladrão e corrupto.

  4. Acho que o olfato não deve ser meu forte, pois jamais senti esse mau cheiro nas pessoas. Dizem que eles não lavam os casacos e que isso faz com que exalem um cheiro de cachorro molhado. Mas, sabe, adoraria estar em Paris com ou sem cachorro molhado.

    1. Hahaha, não é Jaci? Casaco de inverno eu só lavo uma vez por ano mesmo porque tem que levar na lavanderia.

  5. Generalizar é tão irritante! >.< E, o mais irritante, é que muita gente faz isso…
    Os números estão aí pra mostrar e dar na cara dessas pessoas! =P

    Ótimo post! =)

  6. Primeiro de tudo, acho importante destacar a educação e respeito pelo ser humano, seja pelo odor, cor, classe social, cultura e etc. Quando a pessoa é pública então, precisa de mais cuidado ainda, pois uma declaração infeliz, gera uma tremenda polêmica. Eu acho que seu post foi muito feliz, principalmente porque ressaltou as diferenças culturais e isso faz sim diferença. Não gosto que generalizem sobre nós brasileiros e procuro não generalizar sobre outras nacionalidades. Não gostam de outros tipos de culturas, fiquem no seu país, porque somos todos diferentes e o gostoso é conhecer e abrir a mente para essas diferenças.Beijo.

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