Feria de Nîmes: como são as touradas no sul da França

Nîmes, no sul da França, já apareceu aqui no blog com dicas de monumentos históricos para visitar e também como destino do meu casamento. Mas tem outro aspecto da cidade que também me marcou muito, desta vez de forma negativa. Próxima da Espanha, a região acabou absorvendo aspectos da cultura vizinha, entre elas as touradas (chamadas aqui de “corrida”). Aliás, a atividade é praticada em outras cidades, como Arles. A temporada começa na Páscoa e termina em setembro. 

As “corridas” fazem parte da “Feria”, uma grande celebração popular com desfile de carros alegóricos, bares instalados nas calçadas, lenços vermelhos amarrados no pescoço e muita, muita sangria. A “Feria” de Pentecostes de Nîmes, que este ano será realizada de 1º a 5 de junho, é a mais celebre da região. Quase 1 milhão de pessoas enchem as ruas da cidade durante esta época. Estive lá em 2015 e não voltarei mais. Pelo menos não para ver uma tourada.

Logo que chegamos, arena vazia. Uma fanfarra toca e fica dando voltas no espaço.

Por que eu fui?

É o que eu ficava me perguntando durante as horas em que estive naquele lugar. Passei uma semana dizendo que não iria e ninguém insistiu. Mas quando estava na fila, acompanhando o meu marido (noivo na época), fiquei com medo de me arrepender. Não pensei em ver o sofrimento do animal e nem em me divertir com isso, mas pensei no conhecimento que eu não tinha. Sempre disse que era contra a corrida, mas eu não sabia o que era. Não que precisasse ver para saber e ser contra. Entendem o que eu quero dizer? Quando era pequena, me lembro que o meu pai tinha um pôster de um toureiro que tinha o nosso sobrenome (minha família veio da Espanha). Então pensei na cultura dos meus ancestrais e como isso fazia parte de mim, de forma longínqua, porém direta.

Arena lotada! O duelo vai começar. Uma pessoa mostra uma placa com as informações do touro, como peso e origem.

Touro vs. homem

Vou compartilhar aqui um pouco do que eu vi e do que me foi explicado. A disputa entre touro e homem é dividida em três partes, marcadas por músicas específicas. Uma fanfarra toca ao vivo na arena.

Na primeira parte, os toureiros utilizam a capa (chamada capote) para avaliar a “bravura” do touro. O objetivo é controlá-lo e colocá-lo no centro da arena. Depois, se a corrida for mista, ou seja, com a participação de cavalos, entram os picadores (cavaleiros). Os animais são protegidos por uma forte armadura e têm os olhos vendados para não ver o touro. Esses homens devem cravar uma lança no dorso do touro, atingindo assim um nervo específico. Este machucado enfraquece o animal e mantém a sua cabeça abaixada para “facilitar” as próximas etapas. Na segunda parte, o bandarilheiro (“assistentes” do toureiro) crava outras lanças coloridas no touro – sempre no mesmo local. Elas ficam lá para pinçar os músculos e estimular o animal.

A equipe do matador (toureiro “estrela”) testa os capotes (as capas) antes da entrada do animal.

A terceira parte é a morte do touro. O matador (toureiro principal), que durante todo este tempo apenas assistia ao trabalho da equipe, entra em cena com um capote e uma espada falsa. É neste momento que vemos os movimentos característicos da tourada. Quando o animal está dominado, a espada falsa é trocada por uma verdadeira e o matador tenta atingir diretamente o coração do touro. Quanto mais rápida é a morte do animal, mais bem sucedido é considerado o desempenho do homem.

Um júri avalia o tempo, a dominação do animal e a resposta do público. Lenços brancos são agitados ao ar quando as pessoas ficam satisfeitas com o que viram. Como recompensa o matador pode receber (da menos para a mais importante): uma orelha, as duas orelhas, ou as duas orelhas e o rabo do touro que acabou de ser morto. As partes são cortadas e entregues ao homem na hora. Ele pode também sair sem nada, se acharem que ele não fez o trabalho de forma correta.

O touro entrando na arena pela primeira vez.

Dois cavalos entram para arrastar o corpo do animal e uma equipe retira a areia ensanguentada em baldes. O touro é levado diretamente para o açougue e a carne será vendida – à preço de ouro se ele tiver sido briguento e dado trabalho ao matador. Uma vez isso feito, entra o próximo touro e começa tudo de novo. Seis vezes. Seis touros mortos desta maneira diante de um público de milhares de pessoas. Isso apenas naquele dia. E a Feria dura quanto tempo, mesmo?

É importante dizer que em alguns lugares onde há a corrida não é permitido a morte do animal na arena. De acordo com a minha pesquisa, em Portugal, por exemplo, ele é morto em um abatedouro depois. E o estilo de duelo muda também segundo a tradição. Contei aqui para vocês o que eu vi e o que me explicaram sobre como isso é feito no sul da França.

O cavalo “cego”, todo protegido por uma armadura para evitar machucados provocados pelos chifres do touro. (Esta foto foi tirada pelo meu marido. Já estava horrorizada e havia parado há tempos).

Por que eles fazem isso?

Conversei com pessoas que adoram corridas e ouvi os argumentos delas:

Tradição: “Faz parte da nossa cultura e precisamos manter a tradição. Antes era homem com homem. Agora evoluímos, é homem com touro. E é uma arte ver um homem ‘dançar’ com um animal que é muito mais forte do que ele”.

Preservação da raça: “Os touros utilizados na corrida são de uma raça específica e eles são criados para isso. Se não existissem corridas, a raça desapareceria”.

Vida de rei: “Durante cinco anos o touro vive em um espaço aberto enorme, com comida à vontade – ele vive como um rei. A primeira vez que ele tem contato com o ser humano é quando eles o transportam para a arena. Sim, ele provavelmente vai morrer, mas pelo menos teve uma boa vida antes, melhor do que a daqueles que crescem num abatedouro”.

O touro pelo menos tem uma chance: “O touro tem uma chance de sobreviver. Uma bem pequena e rara, mas se ele for bom o suficiente, ele pode ganhar. E os poucos que vencem o duelo voltam a viver como reis. Aqueles que são criados para o matadouro não têm nenhuma chance de sobreviver”.

Me arrependi de ter ido?

Jamais quero ver isso novamente, não recomendo e sou ainda mais contra. Então se a definição de arrependimento for “fazer algo diferente caso pudesse alterar o passado”, então sim, eu me arrependo. Vibrei quando o touro tomou a capa do toureiro. Este foi o único momento em que bati palmas – e eu estava sozinha. Fiquei chocada quando o touro mais pesado do dia derrubou um cavalo – não pela lateral mas pela frente, os chifres empurrando o peito. Aquele cavalo que não sabe o que está acontecendo e não pode se defender porque está vendado. Ele não conseguiu se levantar por causa da armadura e foram necessários quatro homens para colocá-lo em pé. Touradas são desprezíveis. Eu chorei. Ver o sangue escorrendo daquele animal forte (naquele dia eles pesavam de 490 à 520 kg) e as pessoas vibrando com o seu sofrimento foi um horror.

Mas no fim das contas, eu não mudei o destino daqueles animais. Eu estando lá ou não, eles iriam morrer. O que ficou dessa experiência foi uma consciência que é inútil diante da impotência. É por isso que eu questiono se todo mundo falar que é errado e que é contra  – o Festival de Yulin na China, ou a tourada na França, na Espanha, em Portugal etc. – ajuda em alguma coisa. Enquanto os nativos acreditarem na tradição, as pressões exteriores têm poder limitado. É lá de dentro que precisa vir a indignação e a ação para acabar com essas atrocidades.

“Não imaginava que se pusesse

Se divertir tanto em torno de um túmulo

Será que esse é um mundo sério?”

Francis Cabrel – La Corrida

E vocês, o que acham das corridas? Crueldade ou patrimônio cultural?

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20 Comments

  1. Meu Deus, só de ler seu post eu já fiquei DESESPERADA!
    Entendo o motivo de você ter ido, eu acho que acabaria indo também, por carga cultural, mas me arrependendo depois.
    É muito triste saber que o Touro morre como forma de diversão. 🙁
    Mas cada cultura tem seus motivos, ne?
    Achei super interessante o texto, nunca tinha lido nada a respeito, muito pelo desespero de imaginar um animal sendo machucado por diversão.

  2. Eu nada sabia sobre touradas e agora tenho certeza que não quero ir a um lugar desses. Que coisa mais horrível! Fazer os animais sofrerem assim por diversão e dinheiro é muita crueldade.
    Entendo que cada cultura tem suas tradições e que o que é ruim pra mim não necessariamente é para os outros. Mas não é a minha e eu não preciso fazer parte disso.

    1. Acho totalmente possível encontrar uma maneira de preservar a tradição sem machucar (nem utilizar) animais. Vi um vídeo uma vez daquelas corridas de rua com touro, sabe? O uso de animais foi proibido e para continuar a celebrar, eles colocaram pessoas vestidas de touro (numa roupa de plástico inflada) para correr atrás das outras. Todo mundo corria e se divertia da mesma maneira, ninguém sofre e a chance de humanos se ferirem também é zilhões de vezes menor.

  3. Estou simplesmente chocada! Eu sou contra touradas e sempre fui, somente por saber que animais morrem para a diversão do público! Mas nem de longe imaginava que era algo assim, como contou! A cada linha que lia ficava ainda mais chocada! Como pode a cultura cegar as pessoas a ponto de ficar acima do bom senso de alguém? Não é questão de ser cultural, é questão de vida e morte, O animal morre pros outros baterem palma! Os argumentos dos amantes da corrida são surreais… Então quer dizer que se ele próprio viver 5 anos como rei e depois ser assassinado com rituais de crueldade, tá ok, porque ele já viveu muito bem 5 anos??? Sério, não consigo entender… Foi muito bom ler esse texto e entender melhor como funciona, pois realmente não tinha a menor noção de como era!

    1. É muito revoltante, né? Coloquei este argumento para uma das pessoas e a resposta foi a história do “ah, mas agora é homem contra animal. Nós evoluímos, antes era homem contra homem”. O pior é que gente que gosta disso (eles são até chamados de “aficionados”) não está disposta a considerar outro ponto de vista, é a mesma coisa que falar com uma porta.

  4. Oi! Preciso dizer que estou arrepiada ao terminar esse post. Que sensação estranha conhecer melhor como acontece esses eventos. A primeira e única vez que li a respeito foi num livro de crônicas de viagens e a autora ficou impressionada, mas de um jeito positivo, o que me fez pensar que haveria a possibilidade de ser realmente interessante, especialmente pela questão cultural. Mas eu não sei se tenho estômago. E os argumentos são tão vazios! O fato de a vida no abatedouro ser pior justificaria esse espetáculo? Sem falar que a gente ao menos ~ deveria ~ preservar o melhor da cultura e evoluir com o tempo, né? :/ Muito polêmico isso tudo, mas gostei de entender melhor por aqui e ainda espero saber mais a respeito.

    E olha, seu blog é um amorzinho! Que bom que vim parar aqui, agora já tenho referência pra o meu pulinho na França (sabe-se lá Deus quando, mas enfim hahaha). ♡

    1. Fico feliz que tenha achado o post interessante e gostado do blog, Lisete.
      Eu não tinha ideia do que acontecia lá dentro. Admito que ver aquela arena linda cheia de gente e com música ao vivo é uma sensação diferente, de maneira positiva. Até na primeira parte, quando o touro entra na arena e eles “testam a bravura”, tudo bem. É tipo uma brincadeira de bobinho, sabe? Mas quando o animal começa a sofrer, fica insurportável – pela dor do animal e pela animação da platéia. Ainda temos que evoluir muito muito e muito.

      Obrigada pela visita e volte sempre! Espero que tenha a oportunidade de visitar a França em breve!

  5. muito legal voce ter escrito este post, narrou como funciona o evento e o seu ponto de vista em relação a um espetaculo que atrai milhares de pessoas. realmente é uma questão que merece ser bem mais debatida para esclarecimento dessa galera ai da “ahh ja viveu 5 anos, ta bao, manda pro show”,,eu com ctz n conseguiria assistir

  6. Essas experiências de viagem que é bom que alguns (espero que cada vez mais, poucos…) tenham pra repassar a ideia do quão TERRÍVEL é isso…

    Se sofri de ler, imagino o que você sentiu… =/

  7. Sofri só de ler o texto, imagina ver um negócio desse ao vivo, minha nossa… Realmente não consigo entender como isso ainda existe, como ainda tem gente que apoia esse tipo de crueldade.
    🙁

    1. Kat, você acredita que só fui saber sobre as vaquejadas aqui na França? Isso porque o filme “Boi Neon” participou do Festival dos 3 Continentes em Nantes e eu cobri o evento. É o mesmo problema, enquanto a população local achar normal e ganhar dinheiro com isso, muito pouco será feito.

  8. Eu já vi alguns vídeos e já me deixou abalada, não conseguiria ver ao vivo, mas como você comentou a indignação de quem está longe faz pouco ou nenhum efeito, enquanto quem é responsável por manter essa “tradição” viva não se conscientizar, infelizmente ela vai continuar.

  9. Eu acho que o segredo de manter a tradição é esse: procurar formas de manter vivas as tradições, sem ferir ninguém tanto física e mental, sejam os animais ou as pessoas. Isso vale para nós brasileiros também, que insistem na realização de Rodeios .

  10. Relato forte. Li como funciona e fiquei bem sensibilizada. Li as “justificativas” e não sei qual delas é mais idiota. Não sei como em pleno 2017 as pessoas GOSTAM de ver um animal sofrer pelo simples prazer em manter uma “tradição” :/

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