Você sempre tenta ser uma boa pessoa. Tem o hábito básico de dar bom dia, agradecer, pedir licença ou desculpa. Mas também faz aquele exercício difícil de se colocar no lugar do outro, escutar muito e falar apenas se necessário. Tenta – quase sempre – ver o lado positivo das situações. Não joga papel no chão e recolhe o cocô do cachorro religiosamente. Falando em religião, também reza. Agradece a saúde e o amor, pede proteção e perdão pelas faltas.

Longe de ser uma santa, tem um vocabulário de marinheiro. Mas toma cuidado para não usá-lo na frente de quem não tem intimidade. Às vezes solta o verbo, afinal ninguém é de de ferro. Mas tenta policiar os impulsos para não deixar que as próprias ações tenham um impacto negativo no mundo. Acha que fazendo isso pode se considerar uma boa pessoa.

Mas deixa eu te contar uma coisa: todo esse esforço, apesar de essencial, é insuficiente. Ele não te protege do mal. Isso porque basta uma olhada no espelho para o veneno sair. Não pela boca. São os olhos que vão diretamente para o calombo do nariz, para o olho caído e para a raiz murcha do cabelo. A boca até entorta quando a atenção vai para a barriga. Daí para baixo é melhor nem descrever. Nem as unhas do pé escapam.

De que adianta tentar ser positiva para os outros e para o mundo e ser incapaz de tolerar a si mesma? Pratique diariamente gratidão e amor próprio. Não significa que da noite para o dia vai acordar se sentindo a Gisele. Quer dizer que cada vez que se deparar com a sua imagem, no espelho ou nos pensamentos, vai ser bondosa e positiva consigo mesma também. Porque “um estado negativo, depressivo, ainda que não atinga os outros, que fique apenas dentro de você, é o bastante para atrair o mal em sua vida”*. E é difícil ser feliz quando alguém é malvado com você o tempo todo.

*Citação: livro “Sem Medo de Viver” (Zibia Gasparetto)