Até os 13 anos mudei algumas vezes de cidade em torno do interior de SP, seguindo transferências profissionais do meu pai. Mas foi apenas ao fazer a minha primeira mudança aqui na França que reparei que não tenho nenhuma memória desse processo. Conversando com a minha mãe lembramos que eu ia para a casa da vó enquanto eles faziam todo o trabalho. Quando eu voltava o meu quarto já estava arrumado e a vida seguia um novo porém estável rumo. Pois a mudança de Nantes para Antibes – resultado de uma transferência profissional do marido – mudou isso.

Mais de mil e duzentos quilômetros separam as duas cidades. Um orçamento com uma empresa especializada para realizar o trabalho ficou em cinco mil euros. CINCO MIL EUROS. Nem preciso falar que nem consideramos, né? Aí ficaram duas alternativas: alugar um caminhão pequeno e fazermos nós mesmos o trajeto ou graças ao trabalho do meu marido usar a transportadora que faz o trajeto entre as duas agências. Atravessar o país com literalmente tudo o que eu tenho “nas costas” não parecia a melhor – e mais segura – opção e por isso resolvemos escolher a segunda. A desvantagem é que tudo teria que ser equilibrado em paletes e não poderia ultrapassar os dois metros de altura; algo desafiador quando só a parte lateral da sua cama faz 2.15m.

Parece difícil? Aparentemente não era complicado o suficiente para nós, por isso resolvemos adiantar a mudança em alguns dias. A decisão foi tomada numa terça-feira e tudo deveria estar pronto para partir na quinta-feira da mesma semana às 14h. Desnecessário descrever a correria para desmontar e embalar tudo, salvo a madrugada de quarta para quinta-feira. Menos de duas horas de sono é muito pouco até para Coco, que quando teve a portinha da casinha aberta para sair, só deu uma cheirada e voltou para dentro para dormir. Levamos os móveis num utilitário de casa até o trabalho do marido em inúmeras viagens. Na última, entreguei as chaves para ele e fiquei de encontrá-lo com o nosso carro no depósito da empresa para podermos constituir as paletes. Só que eu tinha trancado o apartamento e ele já tinha ido embora. 

Sem abrigo e sem aliança

Fiquei para fora de casa sem chave, sem celular e o pior – sem blusa de frio. Era uma manhã de outono típica em que o termômetro não chegava nos 10 graus. Vesti a carapuça de louca e fui andando até a empresa (ainda bem que era uma possibilidade!). Fiz uma propaganda bem efetiva para a Life Shirts, porque todo mundo me olhava do alto de seus cachecóis, casacos e chapéus. Depois de passar por um processo de descongelamento e de estar no melhor momento (físico e psicológico) para conhecer colegas de trabalho pela primeira vez, deu-se início ao Tetris da vida real. Terminamos de montar, equilibrar, proteger, encapar e etiquetar às 13h58.

Sexta-feira foi dia (e noite) de limpar o apartamento e deixar tudo o que não queríamos mais (e/ou o que não coube na mudança) na garagem para que os meus sogros passassem para pegar. Depois de limpar o antigo lar melhor do que eu jamais o fiz, me dei conta que não estava com as minhas alianças. Algo normal, pois tenho o hábito de tirá-las quando lido com produtos químicos. O que não era normal era elas não estarem em cima da bolsa, onde as tinha deixado antes de começar a limpar e onde achei que teriam ficado mesmo quando mudei a bolsa de lugar. Perder alianças de noivado e casamento já é algo estressante e só fica pior à 1h30 da manhã. Achei! Achei! A que ficou no fundo da bolsa. A sorrateira que se escondeu dentro do saquinho do óculos de sol só foi encontrada alguns minutos depois pelo marido mais calmo do que eu.

Não sei se já falei isso aqui, mas desde que eu vim para a França, marquei que queria a vida com emoção – nada de fazer as coisas do jeito mais simples. Depois de tudo isso, #partiu a viagem em três partes até o novo lar. Nantes > Angers, Angers > Nîmes, Nîmes > Antibes. E agora, bem, as caixas já foram descartadas, as roupas estão no devido lugar e finalmente podemos dormir no colchão. Mas ainda falta lavar a roupa acumulada, mudar o endereço em tudo quanto é site, não trombar na porta durante a noite e decidir se a Coco dorme ao lado do sofá ou em frente a TV. Não sei se algum dia alguém disse que é divertido se mudar. Talvez eu tenha pensado isso antes de descobrir que mudança realmente não é brincadeira de criança.