Você com certeza está sabendo do que aconteceu em Nice na última quinta-feira (14/07). Também ouviu falar dos atentados em Orlando, em Bruxelas, em Paris e em todas as outras cidades do Oriente Médio. Infelizmente esse tipo de notícia parece ter virado rotina. Na maioria das vezes, você vê a notícia na televisão, se sente mal na hora e depois continua a vida porque graças a Deus aquele lugar é longe de onde você está. Mas e quando é perto? Somos aqueles que são sortudos e infelizes ao mesmo tempo; os vizinhos da tragédia. São pessoas que, como eu, se sentem aliviadas por não estarem ou não terem conhecidos naquele local, mas que acabam percebendo que um dia podem estar no lugar errado na hora errada. Não temos controle algum e temos dentro de nós uma mistura de sentimentos: impotência, revolta, alívio, pesar e hesitação.

Depois dos atentados em Paris, a população foi às ruas para dizer que não tinha medo. Me desculpem, mas eu tenho medo. Não quer dizer que eu dou razão aos loucos. Significa que eu tenho muito a perder, que lutei para construir um bom futuro e que a possibilidade de ter isso tirado de mim num piscar de olhos me assusta. Sempre me assustou. Sei que o risco zero não existe, mas quando a gente está em um país livre, não espera ter que afrontar extremistas sanguinários ao assistir um espetáculo de fogos de artifício, ir a um show ou simplesmente ficar em casa.

As pessoas disseram que não abririam mão da liberdade e deram retweet incansavelmente à frase de Benjamin Franklin “Aqueles que abrem mão da liberdade essencial por um pouco de segurança temporária não merecem nem liberdade nem segurança”. Me desculpem, mas eu cresci com esse sacrifício. No Brasil, as casas têm muro alto e cerca elétrica, as janelas têm grades e cadeados. Não estamos ao abrigo da ação de bandidos, mas é a única coisa que podemos fazer para (tentarmos) nos proteger. E concordo, isso não é como deveríamos viver.

Aí vem o Primeiro Ministro francês e diz, em linhas gerais, que o país vai ter que aprender a viver com a ameaça terrorista. O senhor me desculpe, mas não. Eu tenho medo, sim. Eu faço concessões, sim. Mas não posso aceitar que isso agora é “normal”. Nunca foi. E o fato de o senhor pedir que eu me contente com isso é inaceitável. Não posso viver dessa maneira, pensar em criar uma família nesse lugar, onde um atentado terrorista vira argumento político e uma determinada “União” não se une para solucionar o problema. Não aceito que pela incompetência das autoridades eu tenha que viver com medo e abrindo mão da minha liberdade. Falo da França, mas acredito que este sentimento seja o mesmo em todo e qualquer lugar onde há violência, impunidade e incompetência.

Enquanto nada é resolvido, os parentes choram e nós, os vizinhos, nos solidarizamos. Continuamos a viver, pois não temos escolha. Olhamos para todos os lados, pois sabemos que não estamos protegidos. Só nos resta, ao pisar na calçada no dia seguinte, esperar poder voltar para casa.