10 comentários preconceituosos que ouvi na França

Ontem, na página Facebook do Madame Brasil (curte lá!), falei um pouquinho sobre como o preconceito machuca a vítima dele. Tentei passar que ninguém é obrigado a saber de tudo e nem é desprovido de ideias pré-concebidas, porém que com discussões inteligentes podemos entender o outro ponto de vista e respeitar as nossas diferenças.

A reflexão veio com o vídeo da campanha “Racismo virtual. As consequências são reais” da ONG Criola, organização que atua pela defesa dos direitos das mulheres negras. Eles expuseram em outdoors mensagens racistas que algumas pessoas publicaram nas redes sociais. Frases curtas, mas com ódio palpável e com muita falta de reflexão.

E aí vocês podem se perguntar: “ah, mas o que uma jovem branca de classe média sabe sobre sofrer preconceito?”. Sei o suficiente. Mesmo quando morava no Brasil fui vítima. Em um determinado momento era metida porque estudava em escola particular, no outro não era boa o suficiente porque não estudava na escola particular certa. Mas isso não é nada perto do que encontrei aqui na França.

Assim como a campanha, resolvi listar alguns dos comentários absurdos que ouvi da parte de alguns franceses ao saberem que eu era brasileira. Foram situações que enfrentei com pessoas de diferentes regiões do país e de diferentes faixas etárias. É muito generalista dizer que todos os franceses pensam isso de todos os brasileiros, ou que todos eles são contra a imigração, mas tenho certeza de que não sou a única a ter ouvido comentários como estes:

1.“Mas você é branquinha. Quando me disseram que você era brasileira, esperava alguém com a pele mais escura.”

2. “Você não entende muito o francês, mas quando falamos de casamento e de ter filhos você entende, não é?”

3. “Nos lugares onde não há estrada no Brasil… Vocês andam de jegue?”

4. “Vocês têm morango no México?”

5. “Ah, você ainda está aqui. Quando você vai voltar para o seu país?”

6. “Você deveria falar com o seu noivo em francês, assim você aprende o idioma.”

7. “Ah, você é brasileira! Então você fala espanhol?”

8. “Quando os homens daqui vão para o Brasil, nós nos preocupamos. Porque sabe, as mulheres brasileiras…”

9. “Você sabe que aqui nós temos a carteirinha do Front National, né?” (FN: partido de extrema direita, contra a imigração em território francês)

10. “Então você é brasileira… Você veio da favela?”

Agora imagine-se nesta situação: você chegou há pouco tempo e ainda está aprendendo o idioma, portando não tem vocabulário o suficiente para formular uma resposta digna. Por razões particulares deixou emprego, família e amigos para trás. E este é o seu comitê de boas vindas. É difícil de engolir, não é?

Não interessa se você tem nível superior de estudos, fala três idiomas fluentemente e veio aqui em busca do amor ou se você parou de estudar no ensino médio, tem dificuldades mesmo com a língua materna e veio aqui em busca de uma vida melhor. O preconceito, a rigidez, a falta de compreensão – e de interesse – machuca da mesma maneira. Pense nisso da próxima vez em que for interagir com alguém que não conheça. Tenha respeito. Este é o mínimo que esta pessoa merece de você e o mínimo que você deve a si mesmo é não fazer papel de idiota.

Nossa, que desabafo, hein? Me contem o que acharam dessas frases?

Se você mora (ou já morou) no exterior, ouviu coisas semelhantes? Como lidou com isso?

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22 Comments

  1. Nossa, te entendo bem! Moro na França há 4 anos e também já ouvi algumas coisas do tipo, mas graças a Deus é raro. Pior é quando brasileiro tem preconceito contra brasileiro, e não são poucos não.

    1. Também tem isso, né Sara? Infelizmente há pessoas que esquecem de onde vieram e da educação.
      Obrigada pelo comentário!

  2. Nossa, Juh, nem imagino como seja ouvir coisas assim. Mas todos sofrem, em algum momento, preconceito em maior ou menor grau, mas nem por isso se solidarizam para evitar praticá-lo. É um ciclo, infelizmente. Ótimo post-desabafo!

    1. Foi difícil, Fran. Mas vendo as coisas por outro lado, isso me deu uma consciência que antes eu não tinha. Essa dificuldade fez com que eu visse as outras pessoas de maneira diferente. Nós sempre crescemos com isso, né?

  3. Olá Juliana. Moro aqui há vinte anos. No início é um pouco difícil porque as reações não são aquelas que esperamos, pois usamos nossa própria cultura como ponto de referência. Das frases que você colocou, percebo que a maioria revela mais ignorância do que racismo, exceto aquelas que se referem ao Front National. Mas essa conversa é longa e dificilmente pode ser resumida em um parágrafo, não é?

    1. Olá, Lineimar! Realmente é uma conversa longa e sensível. Também acho que os comentários refletem ignorância, mas ela é carregada de preconceitos que talvez nós mesmos, como brasileiros, sejamos culpados em propagar. Tenho a impressão de que estamos sempre “vendendo” a imagem do Brasil como o país do futebol, da pobreza e do samba. Quando tenho a oportunidade, tenho tentado fazer a minha parte e mostrar outros aspectos da nossa rica cultura.

  4. Qualquer tipo de preconceito é horrível, seja ele de cor, cultura, religião,etc. Bastaria que cada um respeitasse as escolhas dos outros que com certeza teríamos um mundo melhor para vivermos com menos violência e agressões verbais e físicas.
    Confiar em você e nos seus ideais, vão te fortalecer e não deixar que esses comentários maldosos te atinjam. Bjo.

    1. Aceitar diferenças não é uma tarefa fácil, mas acho que realmente falta empatia no mundo. Se nos colocássemos no lugar dos outros, talvez conseguiríamos nos respeitar um pouco mais.
      Beijos!

  5. Nossa, quantas coisas desagradáveis você ouviu, e fico simplesmente sem palavras para esse tipo de pessoas que pensam dessa forma. Fora do Brasil as pessoas pensam que somos seres desprovidos de inteligência ou coisa do tipo, mas totalmente nada haver. Existem pessoas incríveis no Brasil, lugares lindos para se ver e entre outras coisas também!
    Beijos e amei o post♥

    http://www.ricknegreiros.com.br

    1. Obrigada pelo comentário, Rick! O comportamento das pessoas mudou um pouco a partir do momento em que consegui começar a me expressar mais no idioma deles. Mas é incrível o fato de que posso realizar as mesmas tarefas que eles, no mesmo nível (ou até superior) e ainda me verão como alguém diferente deles. Mas isso me fez ter orgulho das minhas origens e, no fim das contas, acho que saio vencedora desta luta. 😉 Beijos!

  6. Acho que é a humanidade que é assim, sempre julgando e com suas idéias feitas! O mesmo acontece com eles quando vão para o Brasil. Tipo : ” Mas vc toma banho não é”, ” As francesas não se depilam”! E assim continua! Moro a 20 anos na Europa (Italia/França ) e aprendi que atitudes não se baseiam pela nacionalidade e sim por pessoas.Qualquer país que iremos morar, viveremos esse tipo de situação

    1. Concordo com você, Sara! Também aprendi isso com esta experiência. Porém o que eu acho difícil aqui, pelo menos nas situações pelas quais passei, é que algumas coisas são ditas com o objetivo de machucar ou “cutucar” com o tal “humor francês”. Quando fui com o meu noivo para o Brasil, todos ficaram curiosos. Mas ao invés de perguntar diretamente a ele se ele tomava banho, foram perguntar para a minha mãe, por exemplo. É normal ter curiosidade, mas acho que há maneiras de sacia-la sem ofender. Muito obrigada pelo comentário!

  7. Como é triste ler esses preconceitos que vem de fora! Mas fazer o que né? É o que nós brasileiros passamos aos olhos de quem vê lá fora. E uma coisa elas tem razão…acho bom mesmo ficarem com medo quando os maridos delas vierem para o Brasil, porque elas sabem que as mulheres brasileiras são as melhores do Mundo. Beijos

    1. Olá, Aleks! Também acho que muito disso é nossa culpa. Enquanto eles vendem uma imagem de glamour, refinamento e etc, nós vendemos a imagem de país pobre onde todo mundo ama (e vive) futebol e carnaval. Os dois lados são muito generalistas. Obrigada pela visita. Beijos!

  8. Adorei! Me divirto qdo escuto bobagens do tipo “esperava que fosse negro”, “tão sério? Tem certeza que é brasileiro?” E tb samba, futebol, travesti, Cidade de Deus e outras demonstrações eventuais de desconhecimento.

    Mas quando insistem em tentar me impor um estereótipo que não me pertence… Sou capaz de parar tudo só para mostrar quão ignorantes eles são. (inclusive sobre eles mesmos) 🙂

    1. Obrigada pelo comentário e pela visita, Carol. Também acho essa ignorância extrema muito triste. Pior ainda é a falta de interesse. Tudo bem não saber, mas poxa, mostrar um pouquinho de curiosidade faz bem…

  9. Show de bola desabafo
    Olha moro a 9 anos aqui e não quero nem contar a metade que já passei.
    Bref rs o importante é que sempre tento passar a parte que eles não conhecem, que é a parte positiva do nosso país.
    Ciao

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